Beth Carvalho é louvada em correto ‘Sambabook’ que irmana bambas e estranhos no quintal do samba carioca

Repertório referencial da cantora é revitalizado por 32 artistas em gravações produzidas sem invenções de moda sob a direção musical de Alceu Maia. Capa...

Beth Carvalho é louvada em correto ‘Sambabook’ que irmana bambas e estranhos no quintal do samba carioca
Beth Carvalho é louvada em correto ‘Sambabook’ que irmana bambas e estranhos no quintal do samba carioca (Foto: Reprodução)

Repertório referencial da cantora é revitalizado por 32 artistas em gravações produzidas sem invenções de moda sob a direção musical de Alceu Maia. Capa do álbum ‘Sambabook Beth Carvalho’ Washington Possato ♫ OPINIÃO SOBRE DISCO Título: Sambabook Beth Carvalho Artistas: Agnes Nunes, Arlindinho, Bateria da Mangueira, Diogo Nogueira, Fagner, Ferrugem, Fundo de Quintal, Gabriel Grossi, Hamilton de Holanda, Golden Boys, Jorge Aragão, Luana Carvalho, Leci Brandão, Lu Carvalho, Luciana Mello, Luedji Luna, Maria Rita, Marina Iris, Marcelinho Moreira, Mosquito, Mumuzinho, Nicolas Krassik, Paula Lima, Péricles, Prettos, Rildo Hora, Seu Jorge, Sombrinha, Teresa Cristina, Xande de Pilares, Zeca Pagodinho e Zélia Duncan. Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Compositora bissexta, Beth Carvalho assinou somente oito músicas em trajetória artística iniciada em 1965. Como cantora, no entanto, Elizabeth Santos Leal de Carvalho (5 de maio de 1946 – 30 de abril de 2019) imprimiu assinatura indelével no mundo do samba, tornando-se referência no gênero entre os anos 1970 e 1980 pelo rigor com que selecionava o repertório dos álbuns de samba que lançou entre 1973 e 2014. Tanto que soa natural o fato de a sexta edição do Sambabook – projeto multimídia criado por Afonso Carvalho, empresário que trabalhou com a cantora carioca – festejar Beth Carvalho, sendo a primeira edição dedicada a um artista identificado primordialmente como intérprete. As cinco edições anteriores celebraram as obras autorais dos sambistas João Nogueira (1941 – 2000), Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara (1922 – 2018) e Jorge Aragão. É que a obra deixada por Beth Carvalho resultou tão autoral quanto a de um compositor. Sob direção musical de Alceu Maia, 32 artistas – entre cantores e instrumentistas – se irmanam nesta louvação a Beth Carvalho, cantora que, a partir de 1978, pôs na roda a geração de bambas da geração do grupo Fundo de Quintal. No mundo digital a partir de amanhã, 3 de abril, o Sambabook Beth Carvalho frui com correção com doses ou maiores de brilhos individuais em solos ou em eventuais duetos como o de Maria Rita com Seu Jorge em Ainda é tempo pra ser feliz (Arlindo Cruz, Sombra e Sombrinha, 1988). Há quem faça o Carnaval, como Luciana Mello, intérprete de Firme e forte (Efson e Nei Lopes, 1983), samba folião que ficou meio esquecido, ainda que tenha sido regravado em 2016 por Diogo Nogueira, intérprete de Malandro sou eu (Arlindo Cruz, Sombrinha e Franco, 1985). Há boas surpresas como a escalação de Agnes Nunes para reviver As rosas não falam (Cartola, 1976) no estilo mais interiorizado da jovem artista baiana. Há presenças óbvias e indispensáveis, como a do afilhado portelense de Beth, Zeca Pagodinho, que canta A chuva cai (Argemiro Patrocínio e Casquinha, 1980), sucesso da lavra de bambas da Velha Guarda da Portela – e a do Fundo do Quintal, grupo que tem a cozinha ideal para temperar Samba no Quintal (Everaldo Cruz e Toninho Nascimento, 1979). Duo bamba de São Paulo, Prettos transita bem na rota carioca do pagode Não quero saber mais dela (Almir Guineto e Sombrinha, 1984), partido de alto quilate que ganha versos improvisados por Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira. Já o partido Goiabada cascão (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1978) baixa o tom por carregar o sabor do preconceito musical em versos como “Hoje só tem discothèque, só tem som de black, só imitação / Já não em mais caixa de goiabada cascão”, ouvidos surpreendentemente na voz ativista de Zélia Duncan. O samba em si é ótimo, mas essa parte da letra já não fazia sentido em 1978 por embutir críticas ao movimento musical Black Rio e à disco music. Foi sagaz o convite para o salgueirense Xande de Pilares escalar 1.800 colinas (Gracia do Salgueiro, 1974). Voz do pagode miscigenado dos anos 2010, Ferrugem faz Água de chuva no mar (Carlos Caetano, Wanderley Monteiro e Gerson Gomes, 1999) correr com a mesma fluência com que o samba-enredo Nas veias do Brasil (Luiz Carlos da Vila, 1986) evolui no canto de Marina Iris com o toque da bateria da Mangueira e com citação inteligente do samba-enredo História pra ninar gente grande (Tomaz Miranda, Deivid Domênico, Luiz Carlos Máximo, Mama, Márcio Bola, Ronie Oliveira, Danilo Firmino e Manu da Cuíca, 2018). Em tom mais sereno que roça a melancolia, Péricles reacende Fogo de saudade (Sombrinha e Adilson Victor, 1986) e Jorge Aragão reconstitui Um pedaço de ilusão (Jorge Aragão, Jotabê e Sombrinha, 1981). Cabe ressaltar que Aragão forneceu grandes sucessos para Beth. O maior deles, Vou festejar (Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias, 1978), reaparece no Sambabook na voz da paulistana Paula Lima. A seleção de intérpretes inclui vozes de todo o Brasil. Se a baiana Luedji Luna adentra o quintal carioca para repisar Folhas secas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, 1973) com a cadência do samba tradicional, o cearense Fagner faz O mundo é um moinho (Cartola, 1976) girar com poesia no tom seresteiro do violão de Carlinhos Sete Cordas. Sobrinha de Beth, Lu Carvalho se junta ao bom partideiro Mosquito para se deixar levar na maré de Camarão que dorme a onda leva (Arlindo Cruz, Beto Sem Braço e Zeca Pagodinho, 1983). Com a tarimba dos pagodes da vida, Teresa Cristina carrega Saco de feijão (Francisco Santana, 1977) com a correção que pauta este Sambabook em que ninguém inventa moda com o repertório lapidar de Beth Carvalho, cantora que ganhou projeção ao defender a canção Andança (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós) em festival de 1968 com os Golden Boys. Pois o trio participa deste tributo repisando os passos de Andança com Luana Carvalho, filha de Beth, em gravação que se destaca neste Sambabook que honra uma sambista que, mesmo tendo sido essencialmente intérprete, firmou a própria assinatura no samba ao dar voz a um repertório irretocável que projetou uma geração de compositores e músicos que revolucionaram a maneira de tocar samba. Foi esse repertório ora revitalizado no Sambabook Beth Carvalho que tornou a Madrinha uma referência de alta qualidade nos quintais do Brasil.

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